Belzebu e o Enxame

Por uma Ontologia da Multiplicidade Demoníaca 



Introdução

A figura de Belzebu — o "Senhor das Moscas" — atravessa milênios de história, das divindades cananeias aos grimórios medievais, da literatura de ficção à reflexão filosófica contemporânea. Longe de ser mera relíquia do imaginário religioso, essa entidade oferece um campo privilegiado para pensar questões ontológicas fundamentais: como se dá a relação entre o uno e o múltiplo? O que significa falar em "substância" quando lidamos com multiplicidades? Como compreender a individuação de forças a partir de um fundo virtual?

Este ensaio propõe uma investigação filosófica sobre Belzebu a partir do arcabouço conceitual desenvolvido por Gilles Deleuze, em diálogo com as contribuições de Friedrich Nietzsche, Félix Guattari e os desdobramentos propostos por uma certa "demonologia filosófica" contemporânea. Trata-se de pensar Belzebu não como entidade moral ou personagem teológico, mas como conceito ontológico: a substância que congrega todas as mônadas — as moscas individuais — na forma do enxame. Para tanto, será necessário articular as noções deleuzianas de hecceidade, multiplicidade animal, anômalo e eterno retorno, bem como a distinção fundamental entre demonologia abstrata e demonologia arquetípica.

1. O Problema Ontológico: Substância e Multiplicidade

A questão que se coloca é de natureza metafísica: como pode um "Senhor" — uma unidade, uma substância — ser ontologicamente anterior ou constituinte de um enxame — uma multiplicidade de indivíduos? A tradição filosófica ofereceria, à primeira vista, duas respostas insatisfatórias. A primeira, de matriz platônica, faria de Belzebu uma Ideia transcendente, um modelo do qual as moscas seriam cópias imperfeitas. A segunda, de linhagem aristotélica, faria de Belzebu uma mera generalização abstrata, um nome coletivo para designar a soma das moscas particulares.

Ambas as soluções, contudo, perdem o que há de mais específico no fenômeno do enxame: sua unidade não é a da semelhança (cópias que imitam um modelo) nem a da soma (partes que compõem um todo), mas a da compossibilidade das diferenças. O enxame não é um conjunto de moscas idênticas, mas uma multiplicidade de diferenças que coexistem em um mesmo plano de imanência. É precisamente essa coexistência que a ontologia deleuziana, com seu princípio da univocidade do Ser, permite pensar.

A univocidade afirma que o Ser se diz em um só e mesmo sentido de tudo aquilo de que se diz. Não há um ser do Senhor e um ser das moscas, como se pertencessem a gêneros distintos. Há um só Ser que se diz de ambos, mas isso não significa que eles sejam o mesmo. Belzebu não é uma "super-mosca" da qual as outras derivariam por participação ou semelhança. Ele é, antes, o princípio ontológico que permite que a multiplicidade "mosca" exista como tal — o signo do enxame, sua expressão unívoca.

Essa univocidade, contudo, só se realiza plenamente quando a substância — como queria Spinoza — é posta a girar em torno de seus modos. É o que Deleuze encontra no eterno retorno nietzschiano: não a repetição do Mesmo, mas a repetição da Diferença. O eterno retorno é a "lei sem fundo" que seleciona o que pode retornar — a diferença, o ativo, o simulacro — e expulsa o que não passa em sua prova, o negativo, o idêntico, o representado. O que retorna não é a mosca idêntica a si mesma, mas a hecceidade "mosca" como pura diferença intensiva. O enxame, assim, é o eterno retorno da diferença "mosca" em múltiplas individuações.

2. Belzebu como Anômalo e Hecceidade

Se o eterno retorno é o princípio dinâmico que rege o enxame, é preciso ainda compreender a posição específica de Belzebu nessa dinâmica. A resposta está nos conceitos de anômalo e hecceidade, tal como desenvolvidos por Deleuze e Guattari em Mil Platôs.

O anômalo, esclarecem os autores, não é o chefe do bando, o indivíduo mais forte ou mais destacado dentro da multiplicidade. Se assim fosse, ele seria ainda uma figura da representação, um "primeiro" entre iguais. O anômalo é, ao contrário, a borda, o ponto de desterritorialização da multiplicidade, aquilo que a impede de fechar-se sobre si mesma e a lança para fora, em direção a um devir-outro. Ele não é um elemento na matilha; ele é a condição da matilha como matilha.

Belzebu, nessa perspectiva, não é uma mosca entre outras, por mais poderosa que a imaginação a conceba. Ele é a potência anômala que faz com que o enxame exista como agenciamento. Se as moscas são os elementos do enxame, Belzebu é a sua singularidade rugosa, o ponto de curvatura que faz a linha do enxame escapar para uma outra potência: a pestilência, a decomposição, a podridão, o zumbido que não é de nenhuma mosca em particular mas de todas ao mesmo tempo. Ele é o Outsider — para usar a expressão de H.P. Lovecraft tão cara aos autores — em torno do qual o enxame se organiza sem jamais capturá-lo completamente.

Essa condição remete diretamente ao conceito de hecceidade. Uma hecceidade é uma individuação sem sujeito, uma relação de movimento e repouso, um poder de afetar e ser afetado. Não se trata de uma pessoa, de um objeto ou de uma substância, mas de acontecimentos puros: "uma hora", "um vento", "um inverno" são hecceidades. Elas têm uma individualidade perfeita, à qual nada falta, embora não se confundam com a individualidade de uma coisa ou de um sujeito.

Belzebu, como hecceidade, é o acontecimento puro que subsume as moscas: o zumbido que não emana de nenhuma mosca em particular mas as envolve a todas; a nuvem negra que se desloca no ar; a putrefação que as atrai como potência anônima; o movimento coletivo que não é a soma dos movimentos individuais. Ele é o atavismo — a memória subconsciente, diria Austin Osman Spare — da mosca tornado potência cósmica.

Nesse sentido, Belzebu é o distinto-obscuro por excelência, na acepção leibniziana que Deleuze retoma. Ele é distinto enquanto potência singular — a "senhoria" sobre a decomposição, a capacidade de congregar o enxame — mas permanece obscuro porque não se confunde com nenhuma mosca em particular, nem se deixa apreender completamente pelas determinações claras e distintas da representação. Ele é o fundo virtual do qual as moscas atuais emergem e para o qual retornam — o abismo informe que a cada individuação se distingue sem jamais tornar-se plenamente claro.

3. O Processo de Individuação: A Mosca como Simulacro

Compreendida a posição de Belzebu como anômalo e hecceidade, é possível avançar para o problema da individuação: como se dá a passagem do virtual (Belzebu) ao atual (as moscas individuais)? A resposta exige a articulação dos três conceitos fundamentais da filosofia deleuziana: o virtual, o atual e o eterno retorno como processo seletivo.

O virtual (Belzebu): No plano do Corpo sem Órgãos cósmico — o Caosmo de que fala o autor — Belzebu é uma multiplicidade virtual de singularidades pré-individuais. Ele é a "Ideia" mosca, no sentido deleuziano do termo: não uma essência abstrata ou um modelo transcendente, mas um sistema de relações diferenciais e de pontos singulares. O que define a mosca virtualmente não é uma forma fixa, mas um conjunto de potências diferenciais: velocidade de voo, frequência de zumbido, atração pelo doce e pela putrefação, efemeridade da vida, capacidade de proliferação. Essas singularidades coexistem em Belzebu em estado de perplexação — distintas umas das outras, mas imersas em uma obscuridade que as torna indiscerníveis.

Belzebu constitui, assim, o que o autor dos textos chama de demonologia abstrata do enxame: o fundo virtual, não-sensível, de onde toda individuação procede. Ele é o demônio primordial, o grande Daimon do Eterno Retorno, que não tem sentido nem forma, mas que doa sentido e forma a cada mosca que dele emerge. Como não-senso originário, ele é a condição de possibilidade de todo sentido posterior.

A individuação (síntese disjuntiva inclusiva): O processo de individuação das moscas a partir desse fundo virtual não é, porém, o de uma emanação ou de uma cópia. As moscas individuais não são reproduções de Belzebu, mas simulacros — atualizações que diferençam a Ideia virtual a cada vez. Cada mosca é uma solução provisória e singular para o problema "mosca", uma resposta às condições variáveis do meio em que emerge. Elas são claro-confusas: claras enquanto indivíduos discerníveis no espaço e no tempo, confusas porque carregam consigo a obscuridade de sua origem virtual — cada mosca é, em seu íntimo, uma dobra do abismo Belzebu.

O motor desse processo é a síntese disjuntiva inclusiva. O enxame não exclui as diferenças entre as moscas para formar uma unidade homogênea; ao contrário, ele é a afirmação da distância positiva entre elas. As moscas são membra disjuncta — membros disjuntos — de um só corpo, que é o enxame-Belzebu. A unidade do enxame não é a identidade, mas a compossibilidade das diferenças, seu "avizinhamento" em torno do anômalo que as reúne sem as confundir. É o que Deleuze chama de "anarquia coroada": uma multiplicidade em que cada elemento mantém sua diferença irredutível, mas todos se distribuem em um mesmo espaço liso, regidos não por uma lei transcendente, mas pela imanência do próprio agenciamento.

A seleção (eterno retorno): O eterno retorno atua, nesse processo, como o precursor sombrio que seleciona as individuações dignas de retornar. Ele não é um ciclo que traz de volta o mesmo, mas uma força centrífuga que expulsa tudo o que não passa em sua prova — o negativo, o reativo, o idêntico, o representado.

Uma mosca que tentasse fixar-se como identidade, que pretendesse ser "a mosca-em-si" e se fechasse sobre sua suposta essência, seria uma força reativa. Ela não afirmaria sua diferença, mas buscaria conservar-se como mesmidade. Tal mosca não passaria pelo crivo do eterno retorno: sua pretensão à identidade seria varrida pelo movimento centrífugo que só deixa retornar o que é ativo e diferente.

Retorna, assim, apenas o que é ativo: a hecceidade-mosca. O que retorna não é a mosca individual em sua identidade ilusória, mas a sua capacidade de ser diferença, de compor o enxame, de ser um "nome da história" de Belzebu. O enxame é o eterno retorno da diferença "mosca" em cada ciclo de putrefação e vida — a afirmação de que, apesar da efemeridade de cada indivíduo, a potência do enxame retorna incessantemente, sempre diferente, sempre renovada.

4. Belzebu como Substância: O Corpo sem Órgãos do Enxame

Resta ainda responder diretamente à questão ontológica inicial: em que sentido Belzebu pode ser dito "substância" do enxame? A resposta não pode ser buscada na tradição substancialista clássica, que pensa a substância como suporte de atributos ou como substrato subjacente às modificações. A substancialidade de Belzebu é, antes, a de uma imanência radical — ele é o Corpo sem Órgãos do enxame.

O Corpo sem Órgãos, tal como Deleuze e Guattari o concebem, não é um corpo desprovido de órgãos, mas um corpo que se recusa a ser organizado, que escapa à organização orgânica que fixa funções e finalidades. Ele é puro plano de consistência, superfície de inscrição das intensidades. No caso do enxame, não há uma "mosca-cérebro" que comanda e organiza as demais; não há hierarquia, centro ou finalidade. O enxame é pura multiplicidade descentrada, agenciamento coletivo de intensidades.

Belzebu é esse corpo pleno — a superfície onde a vida e a morte das moscas se registram como acontecimentos, onde suas velocidades e lentidões se compõem, onde seus afetos (fome, medo, atração, reprodução) se cruzam e se propagam. Ele é a Terra Negra do enxame, o fundo ctônico de onde cada mosca emerge e para onde cada mosca retorna na morte. Como tal, ele não é anterior às moscas, mas coextensivo a elas: não há enxame sem moscas, mas as moscas só são enxame porque há esse plano de imanência que as reúne sem totalizá-las.

É nesse sentido que se pode falar, com as devidas precauções, em uma inversão gnóstica da fórmula spinozista: Belzebu sive Natura. Na cosmologia gnóstica que o autor retoma, o mundo sensível não é criação de um demiurgo bom, mas de um demiurgo ignorante que, esquecido das Ideias perfeitas, só pode criar simulacros imperfeitos. Belzebu assume esse papel — não, porém, como figura do Mal moral, mas como princípio ontológico da diferença. Sua "senhoria" não é a de um soberano que legisla sobre súditos, mas a de uma potência anônima que se afirma na imanência: ele é senhor do silogismo disjuntivo inclusivo, aquele que permite a passagem de cada mosca por todos os predicados possíveis da mosca, sem excluir nenhum.

As moscas, nesse quadro, são os modos da substância Belzebu. Cada mosca exprime a natureza de Belzebu — a putrefação, a vida que nasce da morte, a efemeridade, a proliferação — de uma maneira determinada e singular. Elas são, para usar a linguagem de Espinosa, afecções da substância, aquilo que existe em outra coisa e por meio dela é concebido. Belzebu, por sua vez, não existe fora de suas expressões: ele é a Voz única que zumbi em cada mosca e no silêncio do enxame em repouso, a univocidade do Ser que se diz de todas as diferenças.

5. Implicações Filosóficas: Para Além do Maniqueísmo

Essa ontologia do enxame tem implicações que transcendem o mero exercício conceitual. Ela oferece uma alternativa à compreensão moralizante do demônio que domina a tradição judaico-cristã. Belzebu não é, nessa perspectiva, uma figura do Mal a ser combatida ou exorcizada. Ele é, antes, um operador conceitual que permite pensar a positividade da multiplicidade e a afirmação da diferença.

O enxame não é uma multidão de indivíduos isolados que se agregam por necessidade ou acaso. É uma multiplicidade qualitativa, um agenciamento de forças que só existe na e pela composição das diferenças. Belzebu, como seu princípio ontológico, não é o "Um" que domina o "Múltiplo", mas o "Uno-Todo" que se diz do múltiplo sem reduzi-lo à identidade. Ele é o signo de que a unidade não precisa ser a da semelhança ou da subordinação, mas pode ser a da compossibilidade das diferenças.

As moscas, por sua vez, não são meras particularidades subsumidas sob um conceito geral, mas singularidades intensivas que afirmam sua diferença a cada existência efêmera. Sua individuação não é um defeito ou uma queda — como seria para o platonismo — mas a própria realização da potência do enxame. Cada mosca é um simulacro, mas o simulacro não é uma cópia degradada; é a própria potência do falso, a capacidade de criar diferença a partir da repetição. Como ensina Deleuze, reverter o platonismo é afirmar o direito do simulacro, é instaurar o reino das "anarquias coroadas" onde nada se submete ao modelo e tudo se afirma na imanência.

O eterno retorno, enfim, não é o ciclo tedioso da repetição do mesmo, mas a seleção ontológica que faz retornar apenas a diferença. Ele é a prova que separa o ativo do reativo, o afirmativo do negativo. No enxame, o eterno retorno é o zumbido que nunca cessa, a vida que sempre recomeça na putrefação, a dança caótica que a cada ciclo reafirma a potência do múltiplo.

Conclusão

Belzebu, o Senhor das Moscas, revela-se assim como uma figura filosófica de primeira grandeza. Longe da caricatura demoníaca que a tradição nos legou, ele emerge como o pensador de uma ontologia da multiplicidade, o conceito que permite articular univocidade e diferença, virtual e atual, substância e modo.

Nessa ontologia, o enxame não é um conjunto de moscas, mas o modo de existência da própria diferença. Belzebu não é uma mosca, mas a potência anônima que as faz existir como multiplicidade. As moscas não são cópias, mas simulacros que afirmam a potência do falso. E o eterno retorno não é um ciclo, mas a seleção que faz retornar apenas a afirmação.

Que tudo isso possa ser dito de Belzebu — do "Senhor das Moscas" — não é um acaso ou uma mera especulação ociosa. É antes a indicação de que o pensamento, quando levado a suas últimas consequências, encontra no demoníaco não o seu contrário, mas o seu próprio avesso especulativo. Pois se Deus, como queria a tradição, é o princípio da identidade e da semelhança, Belzebu — o anômalo, o senhor da disjunção inclusiva — é o princípio da diferença e da multiplicidade. E talvez, como sugere o autor dos textos que nos guiaram, a filosofia do futuro — a filosofia dos "novos deuses" e dos "pés leves" — seja aquela que, enfim, aprenda a pensar com Belzebu contra o Deus da representação, com o enxame contra o rebanho, com a diferença contra a identidade.

O zumbido que se ergue da putrefação não é um ruído de fundo a ser silenciado. É a música mesma do Ser — unívoca, múltipla, eternamente retornante — que a filosofia precisa aprender a escutar.

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