O Processo de Sensibilização e Problematização na Educação Filosófica em Gilles Deleuze
Introdução
O maior desafio com o qual um
professor de filosofia se depara no ato do ensinar é o de como tocar seus
alunos com aquilo que lhes passará pela comunicação de seu conhecimento. Há no
efeito de uma aula a necessidade de que o professor atinja o ponto em que o
aluno desperte do estado de desatenção e desinteresse generalizado, que o
acerte com o grande Thauma primordial
da filosofia, seja como um espanto que faz o pensamento surgir a partir da
letargia e se coloque a trabalhar. Mas para isso, a aula em si não deve ser uma
estrutura baseada no princípio de identidade, na recognição de um dado pelo
dado, mas sim no afeto que toca o estudante em certo aspecto e lhe forme, como
acontecimento singular, o efeito da violência do pensar e, de assalto, seu ser
em estupor se transfigure de um algo estático para uma multiplicidade de
sentimentos. Tudo se passa pela intensidade com que o professor professa e como
professa, coisa nada simples, mas que faz toda a diferença. Cada um, cada
aluno, vai coletar da aula um elemento que lhe concerne no que lhe afeta
subjetivamente e nisto tudo é atravessado pelo princípio da intensidade que tal
ou tal saber se exerce como força que incomoda o inconsciente até então
acomodado.
Para mim, uma aula não tem como
objetivo ser entendida totalmente. Uma aula é uma espécie de matéria em
movimento. É por isso que é musical. Numa aula, cada grupo ou cada estudante
pega o que lhe convém. Uma aula ruim é a que não convém a ninguém. Não podemos
dizer que tudo convém a todos. As pessoas têm de esperar. Obviamente, tem
alguém meio adormecido. Por que ele acorda misteriosamente no momento que lhe
diz respeito? Não há uma lei que diz o que diz respeito a alguém. O assunto de
seu interesse é outra coisa. Uma aula é emoção. É tanto emoção quanto
inteligência. Sem emoção, não há nada, não há interesse algum. Não é uma
questão de entender e ouvir tudo, mas de acordar em tempo de captar o que lhe
convém pessoalmente. É por isso que um público variado é muito importante.
Sentimos o deslocamento dos centros de interesse, que pulam de um para outro.
Isso forma uma espécie de tecido esplêndido, uma espécie de textura (DELEUZE;
PARNET, 1995).
1.
A
Violência no Pensamento, a Sensibilização e o Exercício Disjunto das Faculdades
O phatos da sensibilização pela filosofia
se encontra na maneira que o professor promove sua aula, em como, singularmente
exerce a própria violência do pensar nas mentes e, talvez, por que não, como
Sócrates, corrompe a juventude. Mas corromper a juventude em direção ao saber
possuí muitos riscos, dado o próprio destino de Sócrates, assim como hoje nos
desafios que a filosofia enfrenta ainda assim. O professor confronta o perigo
da ordem estabelecida, da moral, do rebanho que condiciona o pensamento sempre
a uma imagem e uma representação. Por conta disso o próprio ensinar se torna
buscar, em meio aos muitos, muito poucos que se sensibilizam e desforram o
direito de pensar.
A
natureza lança o filósofo como uma flecha entre os homens; ela não intenta mas
espera que a flecha fique pendurada em algum lugar. Mas ela erra inúmeras vezes
e tem desgosto com isso. Ela procede no âmbito da cultura com tanto desperdício
como nos plantios e semeaduras. É de modo geral e lento que ela atinge seus
objetivos: nisso ela sacrifica tantas e tantas forças (NIETZSCHE, 2020, p. 89).
Por
isso o conhecimento não deve ser - como Nietzsche diz em relação ao
conhecimento histórico - acumulativo. Não deve ser forçado a uma produção
cientifica tão somente, ou produtiva no sentido de sua utilidade no contexto do
mercado, ou reprodutiva como no jornalismo, ou mesmo para os fins de qualquer
poder estabelecido como o Estado, mas deve servir para a vida. Assim, referente
ao conhecimento histórico - e aqui fazemos o paralelo com a filosofia como um
todo – Nietzsche diz: “A história, na medida em que está a serviço da vida,
está a serviço de uma potência a-histórica e por isso nunca, nessa
subordinação, poderá e deverá tornar-se ciência pura, como, digamos, a
matemática” (NIETZSCHE, 1999, p. 275). A filosofia, neste sentido, deve ser uma
forma de saber que se volte para a vida como fluxo de viver e fazer viver, que
exerça na própria cultura o sentimento de almejar novos meios de existência. A filosofia
como mero acumulo de conhecimento, seja no campo da escola como transmissão, ou
na academia como produção, é uma maneira ineficaz de estimulo, pois ela deve,
acima de tudo, afetar. Daí que Deleuze dirá que o papel da filosofia -
referente a sua função de afetar como incomodo causado no interior do indivíduo,
despertando a discordância com o papel exercido pelo conhecimento até então
propagado pelos poderes estabelecidos - o seguinte:
Quando alguém pergunta para que
serve a filosofia, a resposta deve ser agressiva, visto que a pergunta se
pretende irônica e mordaz. A filosofia não serve nem ao Estado, nem à Igreja,
que têm outras preocupações. Não serve a nenhum poder estabelecido. A filosofia
serve para entristecer. Uma filosofia que não entristece a ninguém e não
contraria ninguém não é uma filosofia. Ela serve para incomodar a besteira, faz da besteira algo
de vergonhoso. Não tem outra serventia a não ser a seguinte: denunciar a
baixeza do pensamento sob todas as suas formas. Existe alguma disciplina, fora da filosofia, que
se proponha a criticar todas as mistificações, quaisquer que sejam sua fonte e
seu objetivo? Denunciar todas as ficções sem as quais as forças reativas não
prevaleceriam. Denunciar, na mistificação, essa mistura de baixeza e besteira
que forma tão bem a espantosa cumplicidade das vítimas e dos autores. Fazer,
enfim, do pensamento algo agressivo, ativo, afirmativo. Fazer homens livres,
isto é, homens que não confundam os fins da cultura com o proveito do Estado,
da moral, da religião. Combater o ressentimento, a má consciência que ocupam o
lugar do pensamento. Vencer o negativo e seus altos prestígios. Quem tem
interesse em tudo isso, a não ser a filosofia? (DELEUZE, 2018, p. 136-137).
O surgimento das ideias no campo
transcendental ocorre de modo diverso do que o mundo empírico. Somente sendo
incomodados por algo no âmago de nosso ser somos forçados a pensar no que quer
que seja. Necessitamos de um impulso, de algo que nos propele a, talvez,
considerar os problemas e incoerências próprios do mundo sensível. É uma
perspectiva de ver no transcendental algo que há além do que existe no
empírico, mas que, a partir do empírico, coleta a intensidade pura necessária
para a criação do conceito próprio para a reestruturação do pensamento. Essa
violência no pensamento é como Deleuze esclarece:
Falta-lhes uma garra, que seria a
da necessidade absoluta, isto é, de uma violência original feita ao pensamento,
de uma estranheza, de uma inimizade, a única a tirá-lo de seu estupor natural
ou de sua eterna possibilidade: tanto quanto só há pensamento involuntário,
suscitado, coagido no pensamento, com mais forte razão é absolutamente
necessário que ele nasça, por arrombamento, do fortuito no mundo. O que é
primeiro no pensamento é o arrombamento, a violência, é o inimigo, e nada supõe
a Filosofia; tudo parte de uma misosofia. Não contemos com o pensamento para
fundar a necessidade relativa do que ele pensa; contemos, ao contrário, com a
contingência de um encontro com aquilo que força a pensar, a fim de elevar e
instalar a necessidade absoluta de um ato de pensar, de uma paixão de pensar
(DELEUZE, 2018, p 191).
É verdade que, no caminho que leva
ao que existe para ser pensado, tudo parte da sensibilidade. Do intensivo ao
pensamento, é sempre através de uma intensidade que o pensamento nos advém. O
privilégio da sensibilidade como origem aparece nisto: o que força a sentir e
aquilo que só pode ser sentido são uma mesma coisa no encontro, ao passo que as
duas instâncias são distintas nos outros casos. Com efeito, o intensivo, a
diferença na intensidade, é ao mesmo tempo o objeto do encontro e o objeto a
que o encontro eleva a sensibilidade. [...] E é o mais importante: da
sensibilidade à imaginação, da imaginação à memória, da memória ao pensamento -
quando cada faculdade disjunta comunica à outra a violência que a leva a seu
limite próprio - é a cada vez uma livre figura da diferença que desperta a
faculdade, e a desperta como o diferente desta diferença (DELEUZE, 2018, p.
198).
2.
Os
Signos, o Acontecimento e o Estranhamento
Essa
recepção pela violência, segundo Deleuze, se dá por um signo, estes são os
modos expressivos que se tornam os caracteres afetivos em que o sujeito se
depara com o mundo e com isso se sensibiliza com algo a fim de ter seu
inconsciente absorvido pela intensidade própria do signo que lhe apraz no
princípio de dar um sentido próprio ao aprendizado. Somente comunicando signos
sensíveis e expressivos como educador, o aluno é capaz de absorver o conteúdo
adequadamente. Portanto a violência do pensamento deve se dar pela comunicação
de um signo que tenha a ver com o aluno como algo que lhe seja comum à sua
subjetividade e sua criação subjetiva interna. O signo expressa uma intensidade
que comunica com o aluno aquilo que lhe interessa e que lhe faz comunhão com
suas idiossincrasias. Constitui os elementos próprios do sujeito como ser
formativo assim como sua potência germinativa que se forma com o encontro com o
signo. A filosofia como signo não atinge a ampla abrangência de todos, mas
apenas alguns poucos, portanto deve ser exercida como signo através das intensidades
próprias que esta forma de conhecimento constitui na sua formação a fim de
afetar pela sensibilidade,
Aprender diz respeito
essencialmente aos signos. Os signos
são objeto de um aprendizado temporal, não de um saber abstrato. Aprender é, de
início, considerar uma matéria, um objeto, um ser, como se emitissem signos a
serem decifrados, interpretados. Não existe aprendiz que não seja ‘egiptólogo’
de alguma coisa. Alguém só se torna marceneiro tornando-se sensível aos signos
da madeira, e médico tornando-se sensível aos signos da doença. A vocação é
sempre uma predestinação com relação a signos. Tudo que nos ensina alguma coisa
emite signos, todo ato de aprender é uma interpretação de signos ou de
hieróglifos (DELEUZE, 2003, p. 4).
Mas o
que é o acontecimento? Ele é o presente que perdura, que desliza pelas
dimensões de passado e futuro como sempre existente, sempre por vir e sempre
por chegar, coextensivo em que a existência do momento singular abole
totalmente a lógica do tempo como dimensional e que este momento fortuito
ressoa por toda a eternidade como sempre presente. O acontecimento como noção
transmissível para o ensino é a violência exercida pelo pensamento confrontado
com o inusitado, que ressoa pelo tempo seu encontro de forma a se aperceber que
sempre se esteve em contato com aquele saber como que predestinado a encontrá-lo,
mas que só faltava o momento fortuito do intercessor - que é o professor - a
lhe comunicar tal saber e fazer com que se depare com esta singular percepção
que lhe tira das órbitas estacionarias do pensamento domado. Na verdade, este
saber germinava no interior do aluno, não é algo que lhe é novo, mas um saber
em potência que lhe estava adormecido e que somente foi desperto pelo incentivo
do mestre-educador não como disciplinador, mas como ampliador das
características e virtudes já presentes do aluno e que se desdobram pela
transcendência da própria noção de tempo cronológico como assimilação de algo
que esteve sempre aí, constantemente indo e vindo na percepção do tempo como
não-cronológico.
Em
todo acontecimento existe realmente o momento presente da efetuação, aquele em
que o acontecimento se encarna em um estado de coisas, um indivíduo, uma
pessoa, aquele que designamos dizendo: eis aí, o momento chegou; e o futuro e o
passado do acontecimento não se julgam senão em função deste presente
definitivo, do ponto de vista daquele que o encarna. Mas há, de outro lado, o
futuro e o passado do acontecimento tomado em si mesmo, que esquiva todo
presente, porque ele é livre das limitações de um estado de coisas, sendo
impessoal, pré-individual, neutro, nem geral, nem particular, eventum tantum...; ou melhor, que não há
outro presente além daquele do instante móvel que o representa, sempre
desdobrado em passado-futuro, formando o que é preciso chamar a
contra-efetuação (DELEUZE, 2000, p. 154).
Nietzsche afirma que o ser humano,
quando confrontado com algo que não entende, busca, como sentimento
psicológico, sempre no princípio de causalidade a origem para o efeito que lhe
acomete de forma que possa tranquilizar a mente para este algo que lhe escapa
da compreensão. Ele tenta absorver no sistema de causa e efeito uma explicação
para o medo que parte pela incapacidade da não recognição das faculdades quando
deparada com certo evento que lhe assombra.
O impulso causal é, portanto,
condicionado e provocado pelo sentimento de medo. O ‘por que’ deve, se
possível, fornecer não tanto sua causa por si mesma, mas antes uma espécie de causa – uma causa
tranquilizadora, liberadora, que produza alívio. O fato de ser estabelecido
como causa algo já conhecido,
vivenciado, inscrito na recordação é a primeira consequência dessa necessidade.
O novo, o não vivenciado, o estranho é excluído como causa. – Portanto, não se
busca apenas um tipo de explicações como causa, mas um tipo seleto e privilegiado de explicações, aquelas com que foi eliminado da
maneira mais rápida e mais frequente o sentimento do estranho, novo, não
vivenciado – as experiências mais
habituais (NIETZSCHE, 2017, p. 36).
3.
A
Imagem Dogmática do Pensamento, o Problema e o Não-Senso
É, portanto, a partir do princípio
de recognição das faculdades que se destrói a diferença, como submetido a
quatro elementos: a identidade, a oposição, a analogia e a semelhança. Estes
que sempre se remetem ao mundo da representação e que a partir de seus
desdobramentos sempre se conduzem ao princípio do Cogito cartesiano como representação do pensamento. O mundo da
representação mata a diferença no seu interior por trazer uma imagem, essa que
Deleuze chama de dogmática, ortodoxa ou moral (DELEUZE, 2018, p. 182).
O Eu penso é o princípio mais geral
da representação, isto é, a fonte destes elementos e a unidade de todas estas
faculdades: eu concebo, eu julgo, eu imagino e me recordo, eu percebo - como os
quatro ramos do Cogito. E, precisamente sobre estes ramos, é crucificada a
diferença. Quádruplo cambão, em que só pode ser pensado como diferente o que é
idêntico, semelhante, análogo e oposto; é
sempre em relação a uma identidade concebida, a uma analogia julgada, a uma
oposição imaginada, a uma similitude percebida que a diferença se torna objeto
de representação (DELEUZE, 2018, p. 190).
Essa
forma de imagem dogmática do pensamento se baseia no duplo ideal formador da Doxa, o bom senso e o senso comum,
formalizando um pensamento baseado em proposições já conhecidas como seus
pressupostos e que condicionam a uma predeterminação do pensamento segundo uma
imagem de valor já estabelecido de conhecimento. Essa imagem se define pela boa
vontade do pensador em sempre buscar a verdade acima de qualquer coisa, como
seu pressuposto fundamental de guia para o pensamento. Pois a verdade em si
ninguém pode negar como sendo o bem definitivo para o filósofo onde, desde a
mais antiga tradição sempre se buscou isso. Assim “De acordo com essa imagem, o
pensamento está em afinidade com o verdadeiro, possui formalmente o verdadeiro
e quer materialmente o verdadeiro (DELEUZE, 2018, p. 182).
Assim
a imagem dogmática do pensamento leva o pensamento ao erro como categoria de
falha, seja no campo educacional ou subjetivo, o que vem de percepções pautadas
nessa imagem totalizante, em que há sempre um fundo pressuposto de certo e
errado, como na aplicação de uma avaliação objetiva, em que se mata totalmente
a potencialização do aluno para se expressar pelos meios diversos de uma
criação que se veria exercida em tipos diferentes de se considerar seu
aprendizado. A própria noção de avaliação corresponde a uma absolutização do
pensamento em que existe tão somente uma resposta válida, daí que o erro, como
o negativo do ensino, toma forma e se sobressaí no campo do aprendizado. O
aluno se vê frustrado no seu próprio processo de assimilação de conhecimento e
o professor também por não se ver capaz de transmitir este conhecimento de
forma adequada. Hegel dirá sobre o dogmatismo como pensamento baseado em
respostas sempre remetidas a um valor universal dado como:
O dogmatismo - esse modo de pensar no saber e no estudo da filosofia
- não é outra coisa senão a opinião de que o verdadeiro consiste numa
proposição que é um resultado fixo, ou ainda, que é imediatamente conhecida. A
questões como estas - Quando nasceu César? Que estádio era e quanto media? -
deve-se dar uma resposta nítida. Do
mesmo modo, é rigorosamente verdadeiro que no triângulo retângulo o quadrado da
hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos. (HEGEL, 1992, p. 42).
A abordagem educacional pautada em questões propositivas configura ao pensamento um redirecionamento aos valores de solução de verdadeiro ou falso. A proposição em si necessita que se esteja de acordo com os casos de solução possíveis, assim a solução define a própria proposição, o que crucifica a potencialidade de atualização diversa na filosofia. O que Deleuze propõe é que não se deve definir o problema por suas soluções, mas partir dos próprios problemas como qualidades intensivas e singulares caracterizados por possuírem propriedades que os tornam ao mesmo tempo universais e singulares, de maneira que, diferente das proposições que na maioria das vezes se remetem a um cálculo e conduzem tão somente a respostas hipotéticas baseados em verdadeiro ou falso, o problema abre margem para novos problemas e reinstauram na própria filosofia o cerne do filosofar como tal. Deleuze dirá: “Um problema não existe fora de suas soluções. Mas, em vez de desaparecer, ele insiste e persiste nas soluções que o recobrem. Um problema se determina ao mesmo tempo em que é resolvido; mas sua determinação não se confunde com a solução” (DELEUZE, 2018, p. 220).
Sobre
o problema, Deleuze ainda sublinha que este é como um acontecimento, uma
própria espécie de singularidade que se destoa das proposições como repartidas
na dualidade hipotética do verdadeiro ou do falso. Portanto, o problema é o
próprio acontecimento como mover-se no ato de ensinar no ser do indivíduo, sua
efetuação como acoplamento de afeto é o acontecimento que desencadeia a cascata
de destruição das barreiras contrapostas ao pensamento partindo de uma
perspectiva extraproposicional que não necessariamente condiz com uma solução
requerida ou dada. Pois pensar numa proposição como remetida a um valor de
verdade, como a filosofia sempre o fez, configura o pensamento e a própria
resposta a interrogação de que existe apenas uma resposta certa e adequada a
tal proposição. O problema parte do não-senso como linha de fuga para essa
estruturação das proposições questionativas a fim de abrir margem para a
possibilitação de uma resposta outra do que verdadeiro ou falso, pois se
referida a uma ou outra, e caso não uma ou outra, caía-se no erro. Mas pelo não-senso,
há a perspectiva de que a verdade, como busca por sentido na filosofia, não
recobre mais a ponta de lança da atividade filosófica. Deleuze diz:
Mas estes acontecimentos são acontecimentos ideais, de uma outra natureza e mais profundos que os acontecimentos reais que eles determinam na ordem das soluções. Sob os grandes acontecimentos ruidosos, os pequenos acontecimentos do silêncio, como sob a luz natural, as pequenas fulgurâncias da Idéia. A singularidade está para além das proposições particulares quanto o universal está para além da proposição geral. As Idéias problemáticas não são essências simples, mas complexas, multiplicidades de relações e de singularidades correspondentes. Do ponto de vista do pensamento, a distinção problemática do ordinário e do singular e os não-sensos que vêm de uma má repartição nas condições do problema são sem dúvida mais importantes que a dualidade hipotética ou categórica do verdadeiro e do falso, com os ‘erros’ que vêm apenas de sua confusão nos casos de solução (DELEUZE, 2018, p 219-220).
Assim,
a representação é sinônimo de um mundo em que se dá sempre o Mesmo, o idêntico
e o igual, em que o que difere destes se aniquila pelo já consumado desejo
interior de cada um em sempre reproduzir este Mesmo no campo subjetivo. Tudo o
que se submete ao mundo da representação se submete a uma padronização
totalizante do todo. Talvez seja neste mesmo sentido que Deleuze e Guattari, em
seu Anti-Édipo, analisam o desejo
interior fascista de cada um de buscar um reconhecimento no molar, no macro, em
alguma categoria social ou racial (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 144) que lhes
preencham o sentimento premente de vazio que surge. Mas o vazio, a falta, só surgem
por conta dessa totalização presente na própria representação, a partir do
modelo de recognição com uma imagem, com algo que se reconhece como igual,
idêntico, mesmo, semelhante. A diferença em si se dá como produção e criação da
diferença. Nada nos falta, nossos anseios nada são do que as possibilidades
potenciais de criação exercidas pelos encontros fortuitos que temos com o
mundo, os acontecimentos que nos transformam.
Conclusão
O que
é aprender, então? É uma sensibilização, uma absorção pela intensidade, um
acontecimento que se dá por signos. Tudo isso em comunhão que conflui para que,
não pautado na representação ou na reprodução do mesmo ou do idêntico como
simples regurgitação de conteúdos dados e pré-estabelecidos, conduzem a
criação, onde se faz o aluno um fio condutor para a própria iniciativa do fazer
filosófico no seu cerne, na criação de conceitos, mesmo que isso leve a uma
tarefa de vida inteira, pois o saber acadêmico como resultado de tão somente
estudo e releitura historiográfica da filosofia não é o próprio caminho da
filosofia, mas sim a potencialização de, a partir dessa história da filosofia,
partir para atualização de ideias novas, inéditas e modificadoras do mundo
atual.
O aprendiz, por outro lado, eleva
cada faculdade ao exercício transcendente. Ele procura fazer com que nasça na
sensibilidade esta segunda potência que apreende o que só pode ser sentido. É
esta a educação dos sentidos. E de uma faculdade à outra, a violência se
comunica, mas compreendendo sempre o Outro no incomparável de cada uma. A
partir de que signos da sensibilidade, por meio de que tesouros da memória, sob
torções determinadas pelas singularidades de que Ideia será o pensamento
suscitado? Nunca se sabe de antemão como alguém vai aprender - que amores
tornam alguém bom em Latim, por meio de que encontros se é filósofo, em que
dicionários se aprende a pensar. Os limites das faculdades se encaixam uns nos
outros sob a forma quebrada daquilo que traz e transmite a diferença (DELEUZE,
2018, p. 222).
É
neste sentido que a educação deve ser, não uma absorção pelo princípio da
falta, como se algo faltasse ao aluno, mas como reconhecimento de que o aluno
possuí, tanto quanto o professor, possibilidades de produzir e criar pela sua
completude como ser singular. Nada falta ao aluno como ausência e incompletude,
mas tão somente acréscimo de sua potência a ser descoberta e estimulada de algo
que já germina em seu interior. A partir disso, o que deve ser incentivado é o phatos da violência no pensamento, o
acontecimento que transforma o ser e que se nasce uma vez o próprio pensar como
fazendo-se pela primeira vez possível o pensar. O incômodo, o questionamento, o
arrombamento das portas dogmáticas que se colocam todas as faculdades até
levá-las a seu limiar de atuação pela pura sensibilidade de algo
incompreensível.
Se o
aluno não compreende algo, façamo-lo elevar essa incompreensão ao ponto de um
incômodo que leve seu pensar a problematizar a si mesmo e o seu próprio estado
de não pensar. Não usando dos elementos representativos da identidade,
oposição, analogia e semelhança, mas indo além, pela consideração de que um
conceito é como algo que possui vida própria depois de criado. Algo que, em si,
potencializa a própria vida. De que o
aluno deve, ele mesmo, "pôr no mundo algo incompreensível" (DELEUZE;
GUATTARI, 2012, p. 51), como uma criação singular e inusitada que ela mesma
ganhará vida por suas próprias produções a partir do contato com a tradição
estabelecida de maneira que não as reproduzimos, mas que façamos um filho
monstruoso pelas costas do próprio filósofo (DELEUZE, 1992, p. 14), reimaginado
o que o pensador disse segundo novas perspectivas e intensidades que nos
atravessam.
Referências
DELEUZE, Gilles. Conversações. Tradução Peter Pál
Pelbart. 1 ed. São Paulo: Editora 34, 1992.
________________ Diferença e Repetição. Tradução de Luiz
Orlandi e Roberto Machado. 1 ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2018.
________________Lógica do Sentido. Tradução de Luiz
Roberto Salinas Fortes. 4 ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000.
________________ Nietzsche e a Filosofia. Tradução de
Mariana de Toledo Barbosa e Ovídio de Abreu Filho. São Paulo: n-1 edições,
2018.
________________Proust e os Signos. Tradução de Antonio Piquet e Roberto Machado. 2 ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003.
DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Felix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia
Vol. 5. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice Caiafa. 2 ed. São Paulo: Editora
34, 2012.
________________ O Anti-Édipo. Tradução de Luiz B. L. Orlandi. 2 ed. São Paulo:
Editora 34, 2011.
DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Abecedário de Gilles Deleuze. Paris:
Éditions Montparnasse. Divulgação no Brasil TV Escola, Ministério da Educação. Tradução e
Legendas: Raccord. Filmado
em 1988-1989. Publicado em: 1995.
GALLO,
Sílvio. Deleuze e a Educação. Belo
Horizonte: Autêntica, 2003.
HEGEL, G.W.F. Fenomenologia do Espírito: Parte 1. Tradução de Paulo Meneses e
Colaboração de Karl-Heinz Efken. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1992.
NIETZSCHE,
Friedrich. Crepúsculo dos Ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. 1. Ed.
São Paulo: Companhia de Bolso, 2017.
________________Nietzsche: Obras Incompletas. In: Os
Pensadores. Tradução Rubens Rodrigues Torres Filho. 3. ed. São Paulo: Abril
Cultural, 1983.
________________Schopenhauer como Educador: Considerações Extemporâneas III. Tradução
de Clademir Luís Araldi. 1. Ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2020.

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