O QUE PODE UM CORPO? A PROBLEMÁTICA DE NIILISMO E DESEJO ATRAVÉS DE UMA ÉTICA DA IMANÊNCIA
Introdução
Estou totalmente estupefato, maravilhado!
Tenho um precursor, e que precursor! Eu não conhecia quase nada de Spinoza: que
eu seja agora impelido a ele, foi um “ato instintivo”. Não só sua tendência
geral é a mesma que a minha – fazer do conhecimento o mais potente dos
afetos –, como me reencontro em cinco pontos capitais de sua doutrina; este
pensador, o mais fora da norma e solitário, é-me nesses aspectos justamente o
mais próximo: ele nega a liberdade da vontade; os fins; a ordem moral do mundo;
o não-egoísmo; o mal. Ainda que as divergências sejam também certamente
enormes, elas se devem mais à diferença do tempo, da cultura e da ciência. In
summa: minha solidão, que, como sobre o cume de elevadas montanhas, tantas
e tantas vezes tornou minha respiração difícil e me fez sangrar, é ao menos
agora uma dualidão (NIETZSCHE, 2009, p. XVII-XVIII).
A
finalidade da obra de Espinosa é a de buscar afecções ativas visando a
liberdade; assim, para reconciliar o projeto ao mesmo tempo distinto e
semelhante de Nietzsche e Espinosa, seguiremos o fio da questão que Deleuze
evoca do que pode o corpo com a crítica geral ao niilismo. Dessa maneira, duas
questões devem ser colocadas aqui: Como atingir um máximo de afetos ativos e
por que isso é tão importante? Existe em Espinosa, como coloca Deleuze, uma
renúncia radical das paixões tristes que o coloca numa estirpe que vai de
Epicuro a Nietzsche (DELEUZE, 2002, p. 61). Dito isso, devemos equiparar o
empreendimento de Espinosa com o de Nietzsche como uma crítica ao que seria,
para Nietzsche, o mal maior da civilização: o niilismo. Se ambos combatem as
paixões tristes, e o niilismo é, em si, a manifestação da negatividade das
paixões - do negativo como um todo - devemos buscar em Espinosa e Nietzsche -
nos afetos ativos do primeiro e na afirmação trágica da vida do segundo - um
meio de superação desse niilismo.
Deleuze
em sua obra conjuga ambos os filósofos em sua criação conceitual própria de
maneira a conceber saídas ao negativo. Toda a obra de Deleuze é, em suma, uma
crítica ao negativo, desde sua depreciação da dialética hegeliana que se
alicerça no negativo para a produção de um positivo, até nos comentários desses
filósofos que são acima de tudo pensadores da vida, da alegria e da
positividade. Deleuze dirá da dialética hegeliana:
O trabalho do
negativo está a serviço de uma vontade. Basta perguntar ‘qual é essa vontade?’
para pressentir a essência da dialética. A descoberta cara a dialética é a
consciência infeliz, sua resolução, sua glorificação e a de seus recursos. São
as forças reativas que se expressam na oposição, é a vontade de nada que se
expressa no trabalho do negativo (DELEUZE, 2018, p. 203).
O
objetivo aqui então é o de buscar, unindo o entendimento de Nietzsche, assim
como os posteriores comentários de Deleuze sobre o niilismo, com a Ética
espinosista da ação e da liberdade em busca de um máximo de potência para o que
o corpo seria capaz. Se Deleuze em seu Lógica do Sentido referência Paul
Valéry com a importantíssima frase “O mais profundo é a pele” (DELEUZE, 2000,
p. p.11), não é por mero acaso. Mesmo no início de sua obra ele já sabia da
importância do corpo e sempre evidenciou isso, assim como Nietzsche o coloca em
seu Zaratustra, como um grito de guerra aos desprezadores do corpo (NIETZSCHE,
2018, p. 32-34). Mas ainda assim, devemos lembrar de Espinosa e não levar isso
como uma eminência do corpo sobre o espírito, mas trazer a noção de
paralelismo, onde espírito e corpo estão em estado de igualdade um com o outro.
Para
tanto, devemos considerar os conceitos desses três pensadores, assim como o
trabalho de Deleuze ao lado de Guattari, sem o qual nada seria o mesmo. Uma
crítica radical ao negativo, e sua manifestação cultural, social e psicológica
maior, o niilismo, através da maior potência do sujeito, que é o desejo. Desejo
para Espinosa é o apetite, ou connatus, consciente de si mesmo, e connatus
é o ímpeto do indivíduo para perseverar no seu ser. Nietzsche chamaria desejo
de vontade de potência, e toda essa visão do desejo como algo positivo,
culminando em Deleuze e Guattari que o veriam como produção, contrariam toda
uma tradição filosófica iniciada em Platão no Banquete que vê o desejo e
o amor como uma falta, uma ausência de um paraíso perdido. Eterna nostalgia. Se
Deleuze e Guattari revolucionam a psicanálise é com o intuito de, como
Nietzsche, inverter o platonismo. Pois se para Lacan o desejo é falta, do
objeto ausente, do falo transcendente, é com eles, e com esses pensadores que
eles usam como aliados em sua empreitada, que colocarão todo o platonismo de
ponta-cabeça, combatendo a negatividade que possui o nome que Nietzsche dará de
niilismo.
O niilismo e suas implicações
Nietzsche
via no niilismo uma espécie de devir histórico que culminou na Europa do século
XIX, na qual sua crítica se fundamenta contra essa depreciação dos valores
superiores. É importante entender o niilismo como um processo que cujas
imbricações estão em toda parte: na arte, na cultura, na filosofia, na
sociedade, principalmente psique do homem. Esta depreciação dos valores nobres,
como dizia Nietzsche, tinha sua gênese na tradição metafisica da filosofia, da
qual era combatente ferrenho. Nietzsche traça o perfil do niilismo histórico
segundo o método genealógico buscando sua origem na Grécia em Sócrates e
Platão, seguindo o fio donde passa pelo cristianismo, culminando em Kant. Deleuze
posteriormente sistematiza o conceito de niilismo dividindo-o em três
categorias: o niilismo negativo, que seria a negação da vida por um mundo
transcendente, como o mundo das ideias platônico e o cristianismo; o niilismo
reativo, que após a morte de Deus se estabelece em seu lugar um novo ídolo,
onde seria o caso do positivismo científico, das ideologias enviesadas ao
progresso ou da história com sentido teleológico; e o niilismo passivo, onde se
exaure a vontade de potência e o indivíduo é consumido pelo cansaço da
civilização, não tendo forças nem mesmo para querer morrer.
O
perfil genealógico do niilismo traçado na filosofia pode ser visto feito por
Nietzsche no capítulo do Crepúsculo dos Ídolos “como o ‘mundo
verdadeiro’ por fim se tornou fábula” (NIETZSCHE, 2017, p. 25-26), onde o
filósofo faz o histórico breve do grande erro da depreciação desse mundo e da
vida pelos ideais transcendentes e metafísicos. É possível dizer que essa
história da filosofia que Nietzsche ali conduz é a história do niilismo e que a
própria metafísica, sua essência. Posteriormente a crítica de Deleuze ao
niilismo se encaminhará para o hegelianismo, onde dirá que “A dialética é a
ideologia natural do ressentimento, da má consciência. É o pensamento na
perspectiva do niilismo e do ponto de vista das forças reativas” (DELEUZE,
2018, p. 203). O acontecimento da morte de Deus coloca o homem como Deus em seu
lugar, contudo o homem permanece como um objeto da vontade de nada e das forças
reativas, imagem exemplar do niilismo reativo. Temos o progresso da história em
vias de um fim, mas esse fim é alicerçado no negativo da dialética, no negativo
como motor. Nietzsche, nos fragmentos póstumos, fará a previsão do advento do
niilismo histórico no desenvolvimento da cultura europeia já mostrando seus
sinais de cansaço desde o momento em que ele faz seu diagnóstico:
O
que eu narro é a história dos próximos 200 anos. Descrevo o que está por vir, o
que não já pode mais se dar de outra forma: a
ascensão do niilismo.
Essa história já pode ser contada agora: pois a necessidade mesma está aqui em
obra. Esse futuro já fala em mil sinais, esse destino se anuncia em toda parte;
todos os ouvidos já estão aguçados para essa música do futuro. Toda nossa
cultura europeia já se movimenta há muito tempo com uma tensão torturante, que cresce
de década a década, como que em direção a uma catástrofe: inquieta, violenta,
precipitadamente: como uma torrente que quer chegar ao fim, que não medita mais, que tem medo de
meditar (NIETZSCHE, 2012, p. 174, 11[411]).
O
niilismo, então, vê seus frutos nos mais diversos aspectos do social, e mesmo
aqueles que foram diretamente influenciados por Nietzsche acabam por não
compreender a empreitada fundamental de sua obra, como Freud. Se a psicanálise
tem como princípio a falta, a ausência e o deslocamento, é por ter herdado o
niilismo da tradição filosófica. As implicações psicossociais desse
deslocamento transferem para um outro ou para “O” outro - o objeto
transcendente - a responsabilidade que cabe essencialmente a cada um. Onde há
transferência, há falta, e onde há falta há niilismo, pois ausenta-se um
sentido, assim há as paixões tristes e “tudo o que é triste é ruim, e nos torna
escravos; tudo o que envolve a tristeza exprime um tirano” (DELEUZE, 2017, p. 301).
Todo déspota goza da falta do outro, esse é o seu triunfo. E não é de se
espantar que Espinosa nos faça a advertência, de que os homens lutarão por sua
servidão como se de sua salvação se tratasse (SPINOZA, 2019, p.46), mas a
questão será: por quê? A resposta é que, aproveitando-se da vacuidade de
sentido com que se depara o sujeito, os valores transcendentes encontram o
terreno propício para se instalar, estabelecendo o domínio sobre vida e, em seu
desenvolvimento, afastando o homem da própria vida. Assim, dirá Nietzsche:
Se
desconsiderarmos o ideal ascético, o homem, o animal homem, não teve até
agora sentido algum. Sua existência sobre a terra não possuía finalidade; ‘para
que o homem?’ – era uma pergunta sem resposta; faltava a vontade de
homem e terra; por trás de cada grande destino humano soava como um refrão, um
ainda maior ‘Em vão’. O ideal ascético significa precisamente isto: que algo faltava,
que uma monstruosa lacuna circundava o homem – ele não sabia justificar,
explicar, afirmar a si mesmo, ele sofria do problema do seu sentido. Ele
sofria também de outras coisas, era sobretudo um animal doente: mas seu
problema não era o sofrer mesmo, e sim que lhe faltasse a resposta para o
clamor da pergunta ‘para que sofrer?’. O homem, o animal mais corajoso e
mais habituado ao sofrimento, não nega em si o sofrer, ele o deseja,
ele o procura inclusive, desde que lhe seja mostrado um sentido, um para
quê no sofrimento. A falta de sentido do sofrer, não o sofrer, era a
maldição que até então se estendia sobre a humanidade — e o ideal ascético
lhe ofereceu um sentido! Foi até agora o único sentido; qualquer sentido é
melhor que nenhum; o ideal ascético foi até o momento, de toda maneira, o ‘faute
de mieux’ [mal menor] par excellence. Nele o sofrimento era
interpretado; a monstruosa lacuna parecia preenchida; a porta se fechava para
todo niilismo suicida” (NIETZSCHE, 2009, p. 139).
Tomando
a ideia da morte de Deus e seu desdobramento, o ser humano, a princípio, parte
de um ídolo, necessita de um sentido, mas esse sentido é posto pelo sacerdote
ascético como algo superior, além de si e digno de seu culto. Morto Deus, o
homem se vê órfão e desamparado, o sacerdote ascético se transfigura e o ideal
também. Um novo ídolo deve ser erigido e colocado no trono vazio de Deus, e nada
melhor do que a ciência ou o progresso, assim nascem novos tiranos, novas
maneiras de se controlar e se fazer atrocidades em nome de um objetivo, uma
causa maior do que si mesmo. O niilismo atinge então sua máxima manifestação no
século XX, manifestação social hegemônica do suicídio em massa. O fascismo como
niilismo de massa é a metamorfose e a união de uma pura máquina de guerra que
se apossa de um Estado:
[...] no fascismo,
o Estado é muito menos totalitário do que suicidário. Existe no fascismo um
niilismo realizado. É que, diferente do Estado totalitário, que se esforça por
colmatar todas as linhas de fuga possíveis, o fascismo se constrói sobre uma
linha de fuga intensa, que se transforma em linha de destruição e abolição
puras. É curioso como, desde o início, os nazistas anunciavam para a Alemanha o
que traziam: núpcias e morte ao mesmo tempo, inclusive sua própria morte e a
dos alemães (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 123).
Contudo,
é necessário um elemento fundamental para que se dê conta dessa noção do
niilismo de massa: o desejo. Deleuze e Guattari, evocando Reich, colocam:
Nunca Reich mostra-se maior pensador do
que quando recusa invocar o desconhecimento ou a ilusão das massas para
explicar o fascismo, e exige uma explicação pelo desejo, em termos de desejo:
não, as massas não foram enganadas, elas desejaram o fascismo num certo
momento, em determinadas circunstâncias, e é isso que é necessário explicar,
essa perversão do desejo gregário (DELEUZE; GUATTARI, 2011, p. 47).
O desejo como motor que busca um sentido
na ausência deste e encontra essa significação, tal nos movimentos repressivos
do fascismo como valor de vida e de morte, mesmo que signifique a renúncia a
absolutamente tudo, inclusive a mais absoluta autodestruição. Esse desejo por
um tirano é como Nietzsche coloca em relação ao ideal ascético: uma vontade de
nada, uma vontade contra a vida, mas ainda assim uma vontade (NIETZSCHE, 2009,
p. 140). O esgotamento do homem e o cansaço da civilização é representado pelo último
homem de Zaratustra, ou o próprio Zaratustra em seu estado de completa
inabilidade após o discurso do adivinho (NIETZSCHE, 2018, p. 129). Mas
Nietzsche abre caminho para uma virada completa, uma destruição do niilismo por
ele mesmo, onde Deleuze dirá de rompimento da aliança entre as forças reativas
e a vontade de nada, é o momento de uma destruição ativa (DELEUZE, 2018, p. 221),
o homem que quer perecer de Zaratustra ou o niilismo ativo dito por Deleuze.
O desejo e suas possibilidades
O
desejo, como diz Espinosa, é a própria essência do homem, enquanto é concebida
como determinada, em virtude de uma afecção qualquer de si própria, a agir de
alguma maneira (SPINOZA, 2020, p. 140). Espinosa também diz que o desejo é o
apetite, ou connatus, consciente de si mesmo, e este a essência do ser
humano como determinada a agir para se conservar. Se o niilismo é, por
excelência, negação da vida, autodestruição, suicídio, seja, de maneira como
poderia ser dita por Albert Camus, um suicídio filosófico (CAMUS, 2019), o
desejo é a força diametralmente oposta a esse niilismo, pois ele se estabelece
completamente como conservação da vida, da potência de vitalidade. Entretanto o
desejo por muito tempo na filosofia apareceu como algo distinto dessa produção
e ação, como uma ausência, cabendo a ele uma parte essencial no niilismo e nas
forças reativas. Uma tradição de pensadores nômades, menores - seguindo o
vocabulário de Deleuze e Guattari - subverte essa percepção do desejo, da
vontade, do impulso ou do apetite, palavras que para Espinosa todas significam
uma só e mesma coisa (SPINOZA, 2020, p. 141). Marilena Chaui em seus estudos
sobre Espinosa diz o seguinte sobre o desejo como falta na filosofia hegeliana,
trazendo similitudes às críticas de Deleuze:
A marca do desejo como falta, ausência e
carência reaparece na Fenomenologia do espírito quando Hegel faz a
exposição da figura da consciência de si como Begierde, o desejo
enquanto afirmação abstrata de si pela negação imediata do que é outro, isto é,
o desejo da vida, que passa a consumir e destruir as coisas exteriores para sua
própria preservação, a consciência desejando afirmar-se pela supressão da
exterioridade imediata que a sustenta. Desejo que, em seu percurso imanente
necessário, deixa de ser desejo das coisas naturais e torna-se desejo de
humanidade, de reconhecimento de si por um outro que é também consciência de
si, de sorte que a efetuação do desejo passa pelo desejo de suprimir a outra
consciência enquanto outra, submetendo-a à nossa, de tomar posse da consciência
alheia para obrigá-la a nos reconhecer como humanos, de tal maneira que o
desejo de cada um só possa efetivar-se pela mediação de uma perda, isto é,
quando o outro perde a liberdade de desejar por si mesmo, desejando apenas que
nosso desejo seja satisfeito. O desejo de reconhecimento culmina na luta mortal
entre as consciências, na dialética do senhor e do escravo como supressão de
nossa carência pela destruição da humanidade do outro, que deverá, retornando à
dialética da vida e do trabalho, refazer a humanidade e a liberdade pelo
esvaziamento da ilusão de liberdade do senhor (CHAUI, 2011, p. 17-18).
É
na psicanálise que Deleuze e Guattari encontrarão um perigo ainda maior em
levar a falta ao desejo e irão trazer para o desejo uma percepção contrária à
vista até agora de maneira que a perverta: o desejo como produção. O desejo na
psicanálise é, em suma, recalcado pelo triangulo edipiano da significação de um
valor transcendente. A crítica de Deleuze e Guattari seguirá o fio de toda a
empreitada de Espinosa e Nietzsche para desmoronar a idealização de valorações
morais em detrimento de valorações éticas. “’Além do bem e do mal’... Ao
menos isso não significa ‘Além do bom e do ruim’” (NIETZSCHE, 2009, p. 42).
A proposta é a de estabelecer uma transvaloração de valores, como diz
Nietzsche, que concerna a superar ideais transcendentes, e o signo da castração
é a manifestação psicanalítica desse ideal, assim como a moralidade cristã é a
manifestação religiosa. Santíssima Trindade pai-mãe-filho que substitui a
trindade cristã. Para isso, os autores vão levar a empreitada de Espinosa dos
afetos ativos a outro patamar, colocando todas as suas fichas no desejo,
estabelecendo nele a noção básica do inconsciente como uma fábrica que produz,
mas não somente no campo da família, mas também no meio social e que opera nele
de maneira revolucionária:
Se o desejo é recalcado é porque toda
posição de desejo, por menor que seja, pode pôr em questão a ordem estabelecida
de uma sociedade: não que o desejo seja a-social, ao contrário. Mas ele é
perturbador; não há posição de máquina desejante que não leve setores sociais
inteiros a explodir. Apesar do que pensam certos revolucionários, o desejo é,
na sua essência, revolucionário — o desejo, não a festa! — e nenhuma sociedade
pode suportar uma posição de desejo verdadeiro sem que suas estruturas de
exploração, de sujeição e de hierarquia sejam comprometidas (DELEUZE; GUATTARI,
2011, p. 158).
O
desejo é então elemento ativador do imanente e do social, pois não há separação
entre a produção desejante e a produção social, ambas estão intrinsicamente
conectadas. Seja na atuação micropolítica para se combater injustiças, seja na
criação de sentido próprio do sujeito para superar o niilismo psicológico e
espiritual. O elemento fundamental para fazer o desejo funcionar são as paixões
alegres como motor passando para um estado de maior perfeição. Os afetos ativos
na Ética de Espinosa têm uma finalidade: a liberdade, e para tanto
devemos levar em conta como tais afetos funcionam no que Espinosa chama de
gêneros de conhecimento e a questão do que pode o corpo.
O
que pode um corpo? Essa é talvez a questão mais fundamental que Deleuze faz em
relação à Ética quando Espinosa afirma que ainda não sabemos o que ele
pode. O que pode um corpo vai até onde é capaz sua potência de afetar e ser
afetado, e quanto mais paixões alegres pelas quais nós somos afetados, mais
pode o corpo. Mas esse não é seu limite, as paixões alegres ainda são uma
maneira passiva de potência. É primeiro necessário distinguir a paixão da ação.
A paixão é necessariamente uma maneira passiva de receptividade dos afetos e
afecções, onde estamos ainda imersos em noções comuns e majoritariamente em
ideias inadequadas do que nos afeta. Disso decorre que ainda estamos nos
primeiro e segundo gênero de conhecimento. O primeiro gênero de conhecimento se
caracteriza quando só temos ideias inadequadas dos afetos, ou seja, não
conseguimos formar uma relação adequada de causa e efeito das coisas exteriores
que entram em ligação conosco. Nesse gênero de conhecimento, temos principalmente
afetos tristes, donde percebemos do mundo apenas signos. Ainda é possível
passarmos por afetos alegres nesse estado, contudo com uma ideia inadequada de
sua causa. Quando conseguimos formar uma ideia clara e distinta do porquê algo
nos afeta e como nos afeta, passamos ao segundo gênero de conhecimento. Nesse
estado, passamos a usufruir principalmente de afecções alegres, no entanto
ainda passivas. Somente quando passamos para o terceiro gênero do conhecimento,
quando obtemos um conhecimento adequado de Deus e da natureza, de sua
univocidade, estamos aptos para afecções ativas, onde a partir daí decorre o
que se chamaria liberdade em Espinosa. Ser livre não é o que comumente se chama
livre arbítrio, pois estamos sujeitos aos desígnios de Deus como causa
necessária. Liberdade é ser capaz de um máximo de afetos alegres ativos, assim,
quanto mais afetos alegres ativos, mais pode um corpo, e quanto mais pode um
corpo, mais se é livre.
Dessa
maneira, o que faz do homem suscetível à servidão, o que faz o sujeito se
inclinar às vontades de um soberano pela ausência que lhe incute são as paixões
tristes. Quando o ser humano está no primeiro gênero do conhecimento, passível
apenas de ideias inadequadas, as paixões tristes imperam, e se sobrepõem sobre
o entendimento do homem. Assim, a razão não é capaz de formar uma causa
adequada das afecções que entram em contato com o corpo e o espírito, então o
desejo perverte-se pelo desígnio daqueles que governam sobre a multidão. A
filosofia de Espinosa é então um esforço para se ultrapassar esse estado de
atordoamento e letargia, onde permanecemos presos às paixões tristes e
consequentemente à servidão. Sua empresa é a de guiar o sujeito rumo à
liberdade, e para isso devemos nos atentar à questão que tanto Deleuze retoma
do que pode um corpo. Sobre a filosofia de Espinosa, Deleuze diz o seguinte:
Há, efetivamente,
em Espinosa, uma filosofia da ‘vida’: ela consiste precisamente em denunciar
tudo o que nos separa da vida, todos esses valores transcendentes que se
orientam contra a vida, vinculados às condições e às ilusões da nossa
consciência. A vida está envenenada pelas categorias de Bem e Mal, da falta e
do mérito, do pecado e da remissão. O que perverte a vida é o ódio, inclusive o
ódio contra si mesmo, a culpabilidade. Espinosa segue passo a passo o terrível
encadeamento das paixões tristes: em primeiro lugar a tristeza em si, a seguir
o ódio, a aversão, a zombaria, o temor, o desespero, o morsus conscientiae,
a piedade, a indignação, a inveja, a humildade, o arrependimento, a abjeção, a
vergonha, o pesar, a cólera, a vingança, a crueldade... A análise é tão
profunda que consegue encontrar, até na esperança e na segurança,
o grão de tristeza que basta para fazer delas sentimentos de escravos (DELEUZE,
2002, p. 32).
Nietzsche
anuncia no próprio niilismo a possibilidade de sua destruição e transvaloração,
contudo até esse momento o indivíduo deve necessariamente passar pelos outros
estados de niilismo. Se Nietzsche vê no próprio niilismo uma maneira de
superá-lo, Espinosa vê no conhecimento adequado das afecções uma maneira de ser
conduzido aos afetos ativos. A relação Nietzsche e Espinosa é mais bem
estabelecida por Deleuze quando este conjuga os conceitos depreciadores da vida
combatidos por Nietzsche na Ética de Espinosa:
Espinosa, em toda
sua obra, não cessa de denunciar três espécies de personagens: o homem das
paixões tristes; o homem que explora essas paixões tristes, que precisa delas
para estabelecer seu poder; enfim, o homem que se entristece com a condição humana
e as paixões do homem em geral (que tanto pode zombar como se indignar, essa
mesma zombaria constitui um mau risco). O escravo, o tirano e o padre...
trindade moralista. [...] O tirano precisa das almas para triunfar, do mesmo
modo que as almas tristes precisam de um tirano para se prover e propagar. De
qualquer forma, o que os une é o ódio à vida, o ressentimento contra a vida. A
Ética traça o retrato do homem do ressentimento, para quem qualquer tipo de
felicidade é uma ofensa, e faz da miséria ou da impotência sua única paixão (DELEUZE,
2002, p. 31)
Dessa
maneira, ambos os filósofos partem do empreendimento de combate do que é posto
por Deleuze do que seria a pedra de toque do nitzschianismo: o ressentimento, a
má consciência, o ideal ascético e o niilismo (DELEUZE, 2018, p. 53). Partindo
desse pressuposto, a questão é como atingir o último nível do niilismo, que
Deleuze vai chamar de niilismo ativo ou, comparativamente com Espinosa, o
terceiro gênero de conhecimento, onde estaríamos aptos para as afecções ativas.
A saída que Nietzsche traz para o
desenvolvimento do niilismo histórico na civilização é através daquele que ele
chamará de o maior dos pesos (NIETZSCHE, 2012, p.205): o Eterno Retorno. O eterno
retorno talvez seja o conceito que nos guie como fio de Ariadne através do
labirinto do niilismo e para fora dele. Considerar esse pensamento tão pesado
que traz àquele que se confronta com ele como o elemento fundamental para se
fazer a separação qualitativa dos espíritos nobres e dos que Nietzsche dirá
escravos. A afirmação irresoluta do devir, deve também ser um sim para tudo o
que foi, pois, a vontade não pode querer para trás (NIETZSCHE, 2018, p. 135). Ela
não pode mudar o que passou, então que afirme assim o destino, ame o destino: Amor
Fati. E Nietzsche, como Espinosa, vê o homem como sujeito à ação inevitável
desse destino. Esse não é, como Leibniz diria, o melhor dos mundos possíveis,
esse é o único mundo possível, então afirmemo-lo como tal, por toda a
eternidade. Essa afirmação se faz num nível não somente existencial, mas ético
também, e como diria Zaratustra “Isso era a vida? Muito bem! Mais uma
vez!” (NIETZSCHE, 2018, p. 151). É isso que Espinosa e Nietzsche se relacionam
mais profundamente, em negar o livre arbítrio e negar a liberdade da vontade e
do desejo. Mas isso não significa uma ausência total de liberdade, somente que
somos impelidos por fatores fisiológicos, psicológicos, sociológicos etc. a
estarmos sujeitos a um estado de realidade necessária. Pois, como Espinosa diz,
“Deus é causa imanente, e não transitiva, de todas as coisas” (SPINOZA, 2020,
p. 29), portanto tudo o que existe, existe em Deus e por meio de Deus, e nada
pode existir fora de Deus, e tudo o que ocorre por Deus, ocorre
necessariamente, como dirá Deleuze:
O verdadeiro estatuto do entendimento
infinito consiste nas seguintes proposições: 1º) Deus produz tal como se
compreende; 2º) Deus compreende tudo o que produz; 3º) Deus produz a forma sob
a qual ele se compreende e compreende todas as coisas. Essas três proposições demonstram,
cada qual à sua maneira, que não existe possível, que todo possível é
necessário (Deus não concebe possíveis no seu entendimento, mas 1º) – limita-se
a compreender a necessidade da sua própria natureza ou da sua própria essência;
2º) compreende necessariamente tudo o que emana de sua essência; 3º) produz
necessariamente essa compreensão de si mesmo e das coisas)” (DELEUZE, 2002, p.
71).
Portanto, não existem mundos possíveis,
não existem – em absoluto - outros mundos, somente esse, pois tudo o que Deus
produz se faz de forma necessária. Mas este não é um estatuto da total
não-liberdade do homem. Com o concurso da razão, o homem pode ser ativo, devir
ativo, conduzir-se a um estado de beatitude em que as paixões tristes não o
dominem.
Contudo, em relação ao eterno retorno, essa
afirmação em Deleuze sofrerá uma transmutação, e todo sim irresoluto à ação, à
alegria e ao devir ativo se encaminhará para uma potencialização de uma força
centrifuga da roda do devir, donde tudo o que é negativo, reativo e fraco será
expulso da força seletiva do eterno retorno, permanecendo somente o que é
afirmado. O eterno retorno da diferença, eterno retorno seletivo, faz da
própria negação uma ferramenta a serviço da afirmação, a fim de conservar
somente o que é ativo:
O
eterno retorno serve-se da negação como nachfolge e inventa uma nova
fórmula da negação da negação: é negado, deve ser negado tudo o que pode ser
negado. O gênio do eterno retorno não está na memória, mas no desperdício, no
esquecimento tornado ativo. Tudo o que é negativo e tudo o que nega, todas
estas afirmações médias que carregam o negativo, todos estes pálidos Sim mal
vindos que saem do não, tudo o que não suporta a prova do eterno retorno, tudo
isto deve ser negado. Se o eterno retorno é uma roda, é preciso ainda dotá-la
de um movimento centrífugo violento que expulsa tudo o que ‘pode’ ser negado, o
que não suporta a prova. [...]Assim a negação como conseqüência resulta da
plena afirmação, consome tudo o que é negativo e consome a si própria no centro
móvel do eterno retorno (DELEUZE, 2018, P. 84-85)
Essa diferenciação qualitativa será
possível por uma força de criação, criação da diferença através da repetição do
eterno retorno. Repete-se a fim de eliminar tudo o que concerne à falta, ao
negativo. Todo niilismo, toda fraqueza serão postos de lado na separação entre
o que é nobre e o que é decadente. E essa seleção ativa da diferença é uma
seleção de caráter ético acima de tudo. O eterno retorno, assim como o Amor
Fati - que é a consequência necessária desse conceito - parte da ideia de
esquecimento como motor. Nietzsche relacionará a capacidade de esquecimento da
consciência humana com a capacidade de digestão do organismo. Uma assimilação
psíquica, comparativamente com uma assimilação física (NIETZSCHE, 2015, p. 43).
Assim, o esquecimento é produto de uma força plástica do indivíduo, que
estabelece aqueles mais aptos a fazer do sofrimento matéria-prima para a
criação. O eterno retorno para Deleuze atingirá sua consolidação na união de
Dionísio com Ariadne, ali onde a afirmação se torna dupla e redobrada, onde sua
seletividade é, de fato, o esquecimento enfim tornado ativo, que se condiciona
para somente preservar o que se afirma:
Mas
quando a afirmação dionisíaca encontra em Ariadne seu pleno desenvolvimento,
Dioniso por seu turno aprende algo novo: que o pensamento do Eterno Retorno é
consolador, assim como o próprio Eterno Retorno é seletivo. O Eterno Retorno é
inseparável de uma transmutação. Ser do devir, O
Eterno Retorno é o produto de uma dupla afirmação
que
faz retornar o que se afirma e só faz devir o que é ativo. Nem as forças
reativas nem a vontade de negar retornarão: são eliminadas pela transmutação,
pelo Eterno retorno que seleciona. Ariadne esqueceu Teseu, já nem sequer é uma
má recordação. Teseu jamais
retornará. O Eterno Retorno é ativo e afirmativo; é a união de Dioniso e
Ariadne (DELEUZE, 2004, p.121).
Um conceito fundamental desenvolvido por
Deleuze e Guattari para o qual nos desdobraríamos na noção do que pode o corpo
é o do Corpo sem Órgãos. Ele se relaciona com essa ideia geral de
potencialização imanente que tanto Espinosa quanto Nietzsche tendiam em suas
obras. A criação de um corpo sem órgãos está intimamente ligada à criação de
subjetividade autêntica, e nisso se inscreve como contraponto à criação de
subjetividade pela sociedade capitalista. Deve-se ver no corpo sem órgãos um
método de resistência, já que a subjetividade capitalista é ela mesma
manifestação de uma subjetividade niilista do que seria a pulsão de morte. Assim,
a sociedade capitalista se encontra com o niilismo com o que Agamben diz:
Mas a falta de sentido da existência
individual, que ela herdou dos subsolos do niilismo, tornou-se entretanto tão
insensata que perdeu todo o pathos e transformou-se, revelando-se
abertamente, em exibição quotidiana: nada se assemelha mais à vida da nova
humanidade quanto um filme publicitário do qual foi apagado qualquer sinal do
produto publicitado. A contradição do pequeno burguês é que ele ainda procura,
porém, neste filme o produto pelo qual sofreu uma decepção, insistindo apesar
de tudo em se apropriar de uma identidade que, na realidade, se tornou para ele
absolutamente imprópria e insignificante. Vergonha e arrogância, conformismo e
marginalidade são assim os extremos polares de toda a sua tonalidade emotiva (AGAMBEN, 1993, p.51).
O corpo
sem órgãos aparece como conceito no desenvolvimento da esquizonálise como plano
de imanência e motor imóvel das máquinas desejantes. Sua interligação à ideia
de pulsão de morte é sempre presente pois um passo em falso em sua execução
pode conduzir a uma saída suicida da estratificação do inconsciente e do
social. A oposição inicial feita por Deleuze e Guattari com a noção de niilismo
vem da psicanálise onde eles veem a triangulação edipiana como a morte do
desejo:
Édipo é um vetor: 4, 3, 2, 1, 0... Quatro
é o famoso quarto termo simbólico; três é a triangulação; dois são as imagens
duais; um é o narcisismo; zero a pulsão de morte. Édipo é a entropia da
máquina desejante, sua tendência à abolição externa. É a imagem ou a
representação introduzida na máquina, o clichê que para as conexões, exaure os
fluxos, que põe a morte no desejo e substitui os cortes por uma espécie de
emplastro — é a Interruptora (os psicanalistas como sabotadores do desejo) (DELEUZE;
GUATTARI, 2011, p. 516).
A morte do desejo é a própria morte da
vida como possibilidade de atividade. Mas a psicanálise não o único lugar em
que o desejo morre. Nietzsche dirá do Estado que ele é o mais frio de todos os
monstros e onde ele termina abrem-se as pontes para o Além do Homem (NIETZSCHE,
2018, p. 46-49). Mas qual a manifestação mais funesta desse Estado? Aquela que
Deleuze e Guattari dirão que possuí uma axiomática que se apossa de todos os
fluxos de descodificação e nada lhe escapa: o Estado capitalista. Contudo
somente uma linha de fuga intensa pode se sobressair ao estado capitalista, ao
divã do analista e de todo empreendimento niilista de negação da vida que ruma
a uma subjetividade de pulsão de morte: o corpo sem órgãos. Novamente segundo
Agamben, a perspectiva da sociedade capitalista sobre o mundo se encontra com a
falta de sentido niilista quando confrontada com a morte:
O facto é que a falta de sentido da sua
existência se depara com uma última falta de sentido, onde naufraga toda a
publicidade: a morte. Perante ela, o pequeno burguês é confrontado com a última
expropriação, com a última frustração da individualidade: a vida na sua nudez,
o puro incomunicável, onde a sua vergonha encontra finalmente a paz. Deste
modo, ele cobre com a morte o segredo que deve no entanto resignar-se a
confessar: que também a vida na sua nudez lhe é, na verdade, imprópria e
puramente exterior, que não existe, para ele, nenhum abrigo na terra (AGAMBEN, 1993,
p. 51-52).
Dessa maneira, trazemos o conceito de
corpo sem órgãos como contraposição à essa subjetividade ausente de sentido que
ruma ao niilismo. O corpo sem órgãos é, no entanto, um trabalho delicado,
desígnio que requer, como os autores bem colocam, prudência (DELEUZE; GUATTARI,
2012, p. 13), caso contrário cai-se no lugar de onde estava exatamente fugindo,
nos buracos negros de corpos vitrificados e esvaziados, no campo da pulsão de
morte - exemplos incapazes de viver, perdidos em seus corpos drogados ou
masoquistas ao extremo. O corpo sem órgãos é um campo de intensidade pura e, quando
trabalhado com a dose certa de cuidado, experimenta-se as máximas potências do
corpo, drogando-se sem droga, embriagando-se com água pura (DELEUZE; GUATTARI,
2012, p. 33). O corpo sem órgãos é o pleno sim da criança de Zaratustra, a
afirmação desdobrada sobre a vida, ao contrário do sim dialético niilista do
camelo, do espírito do peso. Para chegarmos a essa noção e ao próprio corpo sem
órgãos, devemos voltar a Espinosa e o que Deleuze dirá de um devir ativo quando
passamos para o momento em que formamos noções comuns e ideias adequadas (DELEUZE,
2017, p. 317). Nos tornamos ativos quando temos ideias adequadas e nos
encaminhamos para o que seria a beatitude, um conhecimento adequado de Deus, ou
a natureza, que significam uma só e mesma coisa para Espinosa (Deus sive
natura). Quanto mais ativos, mais nosso corpo se torna capaz de ser afetado
de diversas maneiras por conta de sua potência de agir. Nossa potência faz
parte da potência infinita de Deus e Deus é afetado conforme somos afetados, assim
Deus é afetado de infinitas maneiras. Contudo Deus somente experimenta afecções
alegres ativas por conta de sua potência absoluta. Quanto mais potência nosso
corpo é capaz de atingir e ser afetado, mais próximos de Deus estamos.
A
questão do que pode o corpo então vai inscrever na tradição filosófica uma
ruptura pois ela é a ideia geral da própria filosofia da diferença que Deleuze
traz para o campo, e esses dois, Espinosa e Nietzsche, serão precursores desse
pensamento. Se a potência da ação está diretamente ligada a uma ética dessa
mesma ação, essa seria uma ética do corpo, pois a ação é ela mesma corpo. Essa
é a diferença fundamental que deve ser feita com a moral, pois a moral se
estabelece como um sistema de julgamento, oposição dos valores (Bem/Mal),
contrariamente ao que Deleuze soube trazer, por uma diferenciação qualitativa
dos modos de existência (bom/mau), no caso da ética (DELEUZE, 2002, p. 29).
Tanto Espinosa quanto Nietzsche se encaminham para esse mesmo objetivo:
transvalorar os valores transcendentes que possuem o ranço do niilismo, a carga
de um senhor, de uma vontade que não é a nossa, e substituir por isso a nossa
vontade, nosso desejo, o desejo do corpo que traz com ele as considerações da
liberdade da ação e da decisão.
É nesse caminho que os conceitos fundamentais de Espinosa, Nietzsche, Deleuze e Guattari apresentados até aqui se estabelecem: como uma filosofia da diferença, e essa filosofia da diferença é ela mesma uma filosofia da ação, da práxis ligada a teoria, daquela que liga a vida do filósofo à sua obra e pensamento, e nisso traz consigo toda a responsabilidade ética que disso decorre. O que pode o corpo é uma questão que não está separada da relação com o meio que se está inserido e as consequências que isso traz. A potência do corpo se dirá tanto do que somos capazes de ser afetados, quanto do que somos capazes de afetar e como isso aumentará nossa potência de agir.
Conclusão
A filosofia da diferença é, em suma, uma
filosofia do devir, uma filosofia que terá suas origens nos pré-socráticos,
mais especificamente em Heráclito, mas que sempre estará presente na história
em algum ponto. Ela é o que poderíamos dizer de filosofia menor, que se
relaciona com encontros e agenciamentos. A filosofia para Deleuze e Guattari é
criação de conceitos, mas somente isso não define a filosofia da diferença, ela
também é uma filosofia que faz uso do martelo para se destruir ídolos, que cria
valores assim como cria conceitos. Para Nietzsche, os filósofos do futuro serão
também criadores de valores, seu conhecer será criar, sua vontade de verdade
será vontade de potência (NIETZSCHE, 2005, p. 106), eles se distinguirão dos
trabalhadores filosóficos pois esses são apenas degraus para os verdadeiros
filósofos. Nietzsche prenuncia uma nova categoria de filósofos, filósofos do
futuro, filósofos da criação e da diferença. Ele mesmo diz que é um destino (NIETZSCHE,
2008, p. 102), ele mesmo se pergunta se foi compreendido (NIETZSCHE, 2008, p.
109), e a história mostra como por muitos foi mal interpretado, quando o
próprio maior diagnosticador e combatente do niilismo histórico é por muitas
vezes confundido com o próprio niilismo, daí o que diz Zourabichvili que “É
frequente tomar por adeptos do niilismo os pensadores que, precisamente, o
diagnosticam, traçam seu quadro clínico e se esforçam por ultrapassá-lo sem se
contentar em eliminar o problema do relativismo” (ZOURABICHVILI, 2020, p. 84).
Mas o papel da filosofia da diferença é
trazer o pensamento desses filósofos como ferramentas para a criação conceitual
que se fundamente na afirmação do devir e do corpo, e que renuncia toda
categorização de julgamento transcendente de valores superiores que deprecia a
vida, o qual consiste em um empreendimento niilista de ausência de sentido no
real e transferência desse sentido para o ideal. É, essencialmente o trabalho
de inverter o platonismo e de fazer do simulacro - do mundo aparente - o único
mundo, e quando abolido o mundo verdadeiro, é abolido também o mundo aparente
(NIETZSCHE, 2017, p. 26). Assim, como diz Nietzsche, chega ao meio-dia e a hora
de Zaratustra.
Será então nesse sim dionisíaco da
afirmação conceitual desses pensadores que encontraremos a potência do corpo e
da liberdade, um nomadismo que não se reterritoriliza: “Se o nômade pode ser
chamado de o Desterritorializado por excelência, é justamente porque a
reterritorialização não se faz depois, como no migrante, nem em outra
coisa, como no sedentário” (DELEUZE; GUATTARI, 2012, p. 56). Pensadores
nômades, podemos chamar assim essa seleta casta de filósofos que, acima de
tudo, afirmam a vida, a alegria, o corpo; e seus conceitos de
desterritorializações, linhas de fuga intensas, criações que lutam contra o
caos à maneira da filosofia, com conceitos, como dizem Deleuze e Guattari
(DELEUZE; GUATTARI, 2010, p. 238-239). Mas seu adversário, o adversário desses
pensadores é, sobretudo, o negativo, e esse negativo na forma da depreciação da
vida. Eles o combatem, seja com o Além do Homem, que Zaratustra prediz um
destino cuja ponte o homem deve pavimentar o caminho através da criação de
novos valores, passando pelo próprio niilismo a fim superá-lo consumindo-se em
seu desejo de perecer para dar luz algo novo; seja pela beatitude de Espinosa
que nos conduz para um conhecimento adequando de Deus e da natureza, nos
tornando capazes de agir e ser livres, éticos nas ações imanentes e políticas;
seja também no corpo sem órgãos que é, acima de tudo, um processo de
experimentação, uma condução de trabalho constante de produção e devir,
atividade micropolítica e também imanente e ética.
Deste modo, fazemos da filosofia uma
máquina de guerra, que se contraponha ao sedentarismo de estados estratificados
do pensamento, através da diferença e da criação. Filosofia da diferença:
empreendimento em que Deleuze trabalhou sua vida inteira. Como diz Nietzsche “Pois,
desde que se é uma pessoa, tem-se necessariamente a filosofia de sua pessoa” (NIETZSCHE,
2012, p. 10), e cada filósofo tem em sua obra uma filosofia que poderíamos
dizer de filosofia de vida, pois Nietzsche não distinguia a vida do filósofo de
seu pensamento, muito pelo contrário, julgava-os necessariamente interligados
por questões fisiológicas e psicológicas. Portanto, o objetivo é fazer da
filosofia da diferença intrinsecamente ligada à vida daquele que se debruça
sobre ela, e por isso essa filosofia deve se contrariar aos valores
depreciadores da vida - necessariamente o niilismo - e potencializar ao máximo
os afetos alegres ativos, sendo o corpo o condutor dessa potência. E é o desejo
- força produtiva maior que existe no ser humano, que não cessa de impelir-nos
tanto a nos preservar quanto a criar - que nos conduz a uma subjetividade autêntica,
encaminhada para a superação do negativo, e fundamentada numa ética de novos
valores afirmativos.
Referências
Bibliográficas
AGAMBEN,
Giorgio. Sem classes. In: A comunidade que vem. Tradução António
Guerreiro. 1 ed. Lisboa: Presença, 1993.
CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo.
Tradução de Ari Roitman e Paulina Watch. 4 ed. Rio de Janeiro: Record, 2019.
CHAUI, Marilena. Desejo, Paixão e
Ação na Ética de Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
DELEUZE,
Gilles. Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pál Pelbart. 1 ed. São
Paulo: Editora 34, 2004.
______________. Diferença e Repetição.
Tradução de Luiz Orlandi e Roberto Machado. 1 ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz
e Terra, 2018.
______________.
Espinosa e o Problema da Expressão. Tradução do GT Deleuze – 12 e
Coordenação de Luiz B. L. Orlandi. 1 ed. São Paulo: Editora 34, 2017.
______________. Espinosa
Filosofia Prática. Tradução de Daniel Lins e Fabien Pascal
Lins. 1 ed. São Paulo: Escuta, 2002.
______________. Lógica
do Sentido. Tradução de Luiz Roberto Salinas Fortes. 4 ed. São
Paulo: Editora Perspectiva, 2000.
______________. Nietzsche e a Filosofia.
Tradução de Mariana de Toledo Barbosa e Ovídio de Abreu Filho. São Paulo: n-1
edições, 2018.
DELEUZE,
Gilles; GUATTARI, Félix. Mill Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia Vol.
3. Tradução de Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e
Suely Rolnik. 2 ed. São Paulo; Editora 34, 2012.
______________. Mil Platôs:
Capitalismo e Esquizofrenia Vol. 5. Tradução de Peter Pál Pelbart e Janice
Caiafa. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2012.
______________. O Anti-Édipo.
Tradução de Luiz B. L. Orlandi. 2 ed. São Paulo: Editora 34, 2011.
______________. O Que é a Filosofia?.
Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonso Muñoz. 2 ed. São Paulo: Editora
34, 2010.
NEGRI,
Antonio. Espinosa Subversivo e Outros Escritos. Tradução de Herivelto P.
Solza. 1 ed. Autêntica, 2016.
NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. Tradução de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia de
Bolso, 2012.
______________.
Além do Bem e do Mal:
Prelúdio a uma Filosofia do Futuro. Tradução de Paulo César de Souza. 1. Ed.
São Paulo: Companhia de Bolso, 2005.
______________. Assim Falou Zaratustra: Um Livro
Para Todos e Para Ninguém. Tradução
de Paulo César de Souza. 1. ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2018.
______________.
Crepúsculo dos Ídolos. Tradução de Paulo César de Souza. 1.
Ed. São Paulo: Companhia de Bolso, 2017.
________________. Ecce Homo: Como Alguém se Torna o
que é. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso,
2008.
______________. Fragmentos
Póstumos 1887-1889 (Volume VII). Tradução de Marco Antônio Casanova. 1. ed.
Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.
______________. Genealogia da Moral. Tradução
de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia de Bolso, 2009.
______________. Carta
de Nietzsche a Overbeck de 1881.
In: O mais potente dos afetos: Spinoza e Nietzsche. Tradução de André Martins. São Paulo: WMF Martins Fontes,
2009.
SPINOZA,
Baruch de. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. 2 ed. Belo Horizonte:
Autêntica, 2020.
SPINOZA, Baruch de. Spinoza: obra completa III:
Tratado Teológico-Político. Org. J. Guinsburg, Newton Cunha e Roberto Romano.
São Paulo: Perspectiva. 2019.
ZOURABICHVILI,
François. Deleuze: Uma Filosofia do Acontecimento. Tradução de Luiz b.
L. Orlandi. 1 ed. São Paulo; Editora 34, 2020.

.webp)
.jpeg)
Comentários
Postar um comentário